A Sombra do Elefante
14/05/12
Em todo o lado como aqui #1
Enquanto bebia o seu macchiato sentado na esplanada ensolarada e recatada, B. sentia-se reconfortado. O bulício da cidade rendia-se aos pés daquela bebida açucarada. Este momento de repouso foi interrompido quando notou que atrás de si algumas pessoas conversavam. Tentou então encontrar o caminho de volta àquele instante em que tudo à sua volta parecia apaziguado pelo efeito do macchiato. Não resultou. O diálogo que escutava atrás de si impunha-se-lhe. Tentou, então, concentrar a sua atenção no timbre das vozes, como se, fixando-se unicamente nas inflexões e sonoridades das vozes, tudo o que estivesse a ser dito se evaporasse no ar. Não resultou. Mesmo não querendo, as vozes resgataram-lhe a atenção. Não conseguia identificar o número exacto de pessoas presente na mesa atrás das costas. Conseguia discernir duas vozes que entre si falavam sobre um homem, um tal de D. e do que lhe sucedera. Uma daz vozes dizia-se «perplexa». Encontrara o tal D. há algum tempo na rua da M., depois de longos meses sem o ver. «Percebia-se que estava de rastos», dizia. «Mais magro, um tom esquálido a cobrir-lhe a pele, parecia que o canto da boca e o canto de um dos olhos convergiam para um ponto imaginário». E os adjectivos continuavam:«irreconhecível», «baço», «com os olhos amassados». B., vencido pela curiosidade, era agora todo ouvidos.
03/05/12
Entre a realidade
O W. era um jovem como muitos e muitos outros. Tinha a seguinte particularidade: vivia do prazer de colecionar toda a espécie de objectos sem qualquer critério. Um dia sonhou que os objectos que coleccionava despreocupadamente se tinham tornado subitamente populares e estranhou a curiosidade crescente das pessoas por eles. Sentiu que já não era um jovem como os outros e no sonho do W. tudo aquilo lhe parecia uma situação desconcertante, não percebia nada do que toda a gente lhe dizia e não abria a boca para dizer uma palavra com medo das consequências. Após o sonho, o W. passou a cuidar de uma árvore. Em vez de frutos, a árvore dava cristais, em vez de ramos a árvore tinha braços de veludo e no lugar da raíz, havia esferas. O W., que era um jovem como muitos e muitos outros, viu nos seus braços um ser que na aparência se assememalhava a uma árvore mas ao contrário das outras árvores, esta era de cristal, veludo e esferas e para além disso era portátil. O prazer despreocupado em coleccionar objectos de toda a espécie, sem outro critério que o do seu gosto, continuava a ser aquilo que ele gostava realmente de fazer, mas a espécie de árvore abraçou-o com os seus braços de veludo, os seus cristais e as suas esferas no lugar da raíz, um abraço tão apertado que se repetia diariamente e despertou-lhe, pela primeira vez, a consciência de que era realmente necessário para alguém. Numa manhã de Inverno em que a neve caía, a espécie de árvore ficou coberta com um manto espesso de gelo. Sob o branco da neve aquela espécie de árvore tornou-se-lhe indiscernível e ele, ainda com a memória viva da sua tarefa, não mais a viu. Hoje, para o W., um homem como muitos e muitos outros, não esmorereceu totalmente o prazer despreocupado em coleccionar toda a espécie de objectos segundo o critério do seu próprio gosto, mas prendeu-se-lhe à pele uma tristeza inconsolável.
30/04/12
Objecto Ausente
Citando o Mestre Agostinho de Hipona, «ainda não amava e amava amar» ou o mesmo será dizer (e não é sem o sentimento de ousadia que o digo a seguir à frase de Agostinho) que toda a gente querendo naturalmente ser feliz somente não querendo a felicidade alcançada naturalmente poderá ser feliz.
Nos tempos sombrios e confusos do presente em que custa cada vez mais ser feliz, nada parece mais ao alcance do que a felicidade. Este embuste, que torna o presente abafado por uma atmosfera sufocante de iminente catástrofe, é consequência quer da supressão de Deus quer da "elevação" da mercadoria a uma dimensão separada e independente, como o eixo em torno do qual orbita a multidão na busca incessante da felicidade. Se nada mais resta que vivermos num tempo em que a mercadoria é o Absoluto e estamos cercados por devotos que anseiam ardentemente pela felicidade reflectida na superfície espelhada das vitrines e no brilho da novidade, mais cedo do que pensam os poucos que guardam alguma clarividencia e resistem a embarcar neste estado de coisas - verdadeiros heróis - irão surgir como o último fôlego dos desesperados. Mas porque é um heroísmo mudo e quotidiano como as pedras das calçadas, hoje ele é, ainda, como se nem existisse.
A propensão natural para a felicidade é irrefutável, mas, acredito, não é irreparável.
A felicidade corrompeu-se ao tornar-se predicado do consumo, quando devia ser consequência do desejo de salvação. A salvação é hoje o objecto ausente da relação privada com a mercadoria. A multidão está convencida, ou em desespero de causa quer convencer-se a todo o custo, que ser feliz depende de bens transacionáveis - esta deslocação da felicidade para o interior de uma relação de transacção é proporcional ao desmoronamento das instituições que conservavam a coesão da comunidade através de códigos partilhados e rituais de pertença. A equação entre salvação, instituição e felicidade quebrou-se aos pés da multidão ignorante. O confrangedor mesmo é ver os mais "esclarecidos" dentre a multidão incutir-lhe a estupidez, convencendo-a que as instiuições oprimiram-lhe a liberdade. Como tal abaixo as instituições! Berraram. "Esqueceram-se" de explicar, do alto das suas cabeças arejadas, que fora das instituições não há felicidade.
03/04/12
A Sombra do Elefante "Reserva"
Esta é uma colheita de 18 meses d'A Sombra do Elefante reunindo algumas das suas frases mais «aromáticas».
«uma arte inestética valoriza a origem da experiência, tenha ela o acolhimento que tiver, como uma vitalidade sem imagem.»
«a beleza é uma experiência resevada para outrem»
«o eu não começa nem acaba coisa alguma, apenas participa»
«nos mecanismos misteriosos da semelhança tem lugar o processo de génese da forma»
«nos mecanismos misteriosos da semelhança tem lugar o processo de génese da forma»
«existe um potencial mágico oculto na imagem fotográfica e nas especificidades técnicas do registo - um potencial mágico associado à revelação de forças obscuras e inconscientes apenas ao alcance da máquina, como se a máquina fotográfica e a película possuíssem um pacto, por um acordo misterioso, com realidades inobserváveis.»
«A vida como uma experiência com sentido não é um conceito, é uma sensação que se traduz num comportamento direccionado.»
«a «visão» não é uma característica da própria imagem mas um exercício do olhar, uma região da intencionalidade cuja significação é mais da ordem da convicção do que da evidência.»
«a ferida aberta pela consciência do tempo como nada, foi suplantada nos gregos através de formas ritualísticas que assentavam numa prática do culto dionisíaco - o ser humano regressava ao seio da unidade cósmica selando a divisão cavada pela consciência com a imersão total nas forças da natureza.»
«Que palavra há para nomear a sensação de um horizonte despojado originariamente da palavra, mas que guarda a aventura do pensamento?»
«Conhecendo a incognoscibilidade do outro não conhecemos alguma coisa dele mas alguma coisa de nós.»
«Uma mulher recolhida sob um arco passa as horas a esquartejar os nomes que em bandos esvoaçam em volta dos seus cabelos.»
«À repetição como restituição da existência ao existente chama-se identidade.»
«o homem apenas como peça-da-forma-máquina é um homem em colisão consigo próprio e o desepero revela-lhe isso mesmo.»
«O outro é para mim condição de comunicação e como tal a felicidade é imanente à relação.»
«O masculino representa um tipo de relação com a vida assente numa lógica de poder.»
«A partir do momento em que a relação com o tempo presente, o tempo da diferença, está fixada como relação de poder e dominação, nada mais acontece, nada mais ressoa.»
«Abstraindo a fanfarronice adolescente, a legitimidade da fanfarronice lusa provém de leis não escritas e é delas que extrai a sua presença.»
«Almodóvar,esse protector do princípio do prazer, é um cineasta do fantástico. Cria um mundo à parte, um mundo de criaturas fantásticas, de gente sem história; suplantadas pela «lei do desejo», elas mostram-se como possibilidades de comportamento sem lei nem castração.»
«Digo-me fazendo do sentido um rememorar dos que me esperaram. A individuação, em Benjamin, tem como rosto a retribuição por termos sido esperados.»
29/03/12
«Nós fomos esperados...»
Nostalgia, Tarkovski
Leio a frase enigmática de Filomena Molder e a presença da dissonância acontece. Fico a meio caminho entre o acordo e o desacordo, entre a mútua aspiração e o drama da incomunicabilidade, entre promessa partilhada e a desolação da divergência. Frase inserida num texto do livro Semear na Neve, ela lança-se num movimento de perseguição pelo ser da individuação. Este é um movimento duplo, de ir para o que ficou para trás e de fugir do que já se anuncia. Tal como o plano-sequência do filme de Tarkovski faz lembrar Sísifo a subir e a descer, repetidamente, o sopé inclinado da montanha transportando o rochedo às costas, também a movimentação implicada na frase «Nós fomos esperados...» visa inocular a lembrança. Do quê ou de quem? De Sísifo talvez....
É sob o pano de fundo de uma interpretação que da morte, e por extensão do mito de Sísifo, se extrai sobre a vida, que o sentido da frase recebe sentido. A frase «Nós fomos esperados...» vai no encalço do grande mistério da individuação e nesse esforço por decifrar um sentido para a apropriação de si trava-se o combate por não sucumbir à experiência da individuação como repugnância irreprimível. «Nós fomos esperados...», na espessura da sua mensagem pressente-se um gesto, mesmo que quase imperceptível, na direcção daquilo que nos pode salvar do desalento com a vida. Ela é a alternativa à interpretação da individuação como processo inscrito num curso impiedoso da natureza, sem outra finalidade que não seja o desvanecer-se progressivamente até à morte - assim percebida a vida é vivida como um corpo estranho ao qual estamos, sem querer, umbilicalmente vinculados, ausente de sentido e no entanto massiça na sua ininterrupta presença, ela é sentida como qualquer coisa que causa repulsa irreprimível, dor lancinante tanto mais intensa quanto mais se acentua a convicção de que isto que eu sou tem um aspecto absurdo do qual não há a menor hipótese de escapar: assim nada mais fecunda a individuação nem tampouco nada frutifica nesta atmosfera abafada pelo asco, a náusea, a repulsa e a repugnância visceral da vida que em mim se cumpre. A frase «Nós fomos esperados...» guarda um segredo sobre a vida, um segredo que parece que só a morte antecipada nos revela. Escapatória benjamineana à visão da vida como condenação à morte. Visão da vida esta que faz do nascer um acontecimento insuportável, hediondo mesmo. O nascimento visto como sentença de morte, como um virar de pagina que nos atira para dentro de um acontecimento sem outro desfecho que não seja o definitivo ser devorado pelo tempo, como a aranha devora aos poucos a presa que cai na sua teia. Visão da vida que vive em nós como um elemento estranho e que, mau grado toda a náusea, toda a repulsa e todo o ódio irracional que suscita, se manifesta depois pela desistência de tentar revoltar-se contra a queda no mundo, como quem sabe ser improfícuo querer desfazer o que é insusceptível ser desfeito. A partir do momento em que o nascimento é vivido como sentença que é irreparável, a vida é assim percebida como elemento absolutamente exterior, sentida como meio adverso e não-familiar, elemento ao mesmo tempo tutelar e estranho. Neste momento, a individuação recebe a sua significação como pura ocorrência natural, para lá da qual não se conserva qualquer outra possibilidade de sentido. É aqui que Benjamin assinala como o ser humano procede daquilo que não tem sentido mas faz sentido. A promessa da significação que redima o ser humano da dissolução na ocorrência natural e o faça reconciliar-se com o facto de ter nascido provém de um movimento em direcção ao objecto, à coisa, ao que o acolhe como alguém que o espera. O esconjuro pensado por Benjamin não deixa de parecer algo inconsistente para resistir à experiência da queda no vazio manifestada na visão da individuação como simples ocorrência natural. De todo o modo, a remomeração dá-me a oportunidade de encontrar em torno da palavra a comunicabilidade que me leva à comunidade da qual faço parte. Parece assim que digo-me participando da palavra que faz conservar a comunidade - o núcleo originário da individuação é uma tarefa de participação no acontecimento de fundação da comunidade. Fazer uso da palavra de forma sigular para que assim consiga retribuir com aqueles que antes de mim «dependeram» de mim. Digo-me fazendo do sentido um rememorar dos que me esperaram. A individuação, em Benjamin, tem como rosto a retribuição por termos sido esperados....Aliás que outra coisa senão um desejo de retribuição leva o personagem do filme a não ceder à derrota, a não esmorecer perante a contrariedade do que parece inviável, desistindo da sua missão?
É sob o pano de fundo de uma interpretação que da morte, e por extensão do mito de Sísifo, se extrai sobre a vida, que o sentido da frase recebe sentido. A frase «Nós fomos esperados...» vai no encalço do grande mistério da individuação e nesse esforço por decifrar um sentido para a apropriação de si trava-se o combate por não sucumbir à experiência da individuação como repugnância irreprimível. «Nós fomos esperados...», na espessura da sua mensagem pressente-se um gesto, mesmo que quase imperceptível, na direcção daquilo que nos pode salvar do desalento com a vida. Ela é a alternativa à interpretação da individuação como processo inscrito num curso impiedoso da natureza, sem outra finalidade que não seja o desvanecer-se progressivamente até à morte - assim percebida a vida é vivida como um corpo estranho ao qual estamos, sem querer, umbilicalmente vinculados, ausente de sentido e no entanto massiça na sua ininterrupta presença, ela é sentida como qualquer coisa que causa repulsa irreprimível, dor lancinante tanto mais intensa quanto mais se acentua a convicção de que isto que eu sou tem um aspecto absurdo do qual não há a menor hipótese de escapar: assim nada mais fecunda a individuação nem tampouco nada frutifica nesta atmosfera abafada pelo asco, a náusea, a repulsa e a repugnância visceral da vida que em mim se cumpre. A frase «Nós fomos esperados...» guarda um segredo sobre a vida, um segredo que parece que só a morte antecipada nos revela. Escapatória benjamineana à visão da vida como condenação à morte. Visão da vida esta que faz do nascer um acontecimento insuportável, hediondo mesmo. O nascimento visto como sentença de morte, como um virar de pagina que nos atira para dentro de um acontecimento sem outro desfecho que não seja o definitivo ser devorado pelo tempo, como a aranha devora aos poucos a presa que cai na sua teia. Visão da vida que vive em nós como um elemento estranho e que, mau grado toda a náusea, toda a repulsa e todo o ódio irracional que suscita, se manifesta depois pela desistência de tentar revoltar-se contra a queda no mundo, como quem sabe ser improfícuo querer desfazer o que é insusceptível ser desfeito. A partir do momento em que o nascimento é vivido como sentença que é irreparável, a vida é assim percebida como elemento absolutamente exterior, sentida como meio adverso e não-familiar, elemento ao mesmo tempo tutelar e estranho. Neste momento, a individuação recebe a sua significação como pura ocorrência natural, para lá da qual não se conserva qualquer outra possibilidade de sentido. É aqui que Benjamin assinala como o ser humano procede daquilo que não tem sentido mas faz sentido. A promessa da significação que redima o ser humano da dissolução na ocorrência natural e o faça reconciliar-se com o facto de ter nascido provém de um movimento em direcção ao objecto, à coisa, ao que o acolhe como alguém que o espera. O esconjuro pensado por Benjamin não deixa de parecer algo inconsistente para resistir à experiência da queda no vazio manifestada na visão da individuação como simples ocorrência natural. De todo o modo, a remomeração dá-me a oportunidade de encontrar em torno da palavra a comunicabilidade que me leva à comunidade da qual faço parte. Parece assim que digo-me participando da palavra que faz conservar a comunidade - o núcleo originário da individuação é uma tarefa de participação no acontecimento de fundação da comunidade. Fazer uso da palavra de forma sigular para que assim consiga retribuir com aqueles que antes de mim «dependeram» de mim. Digo-me fazendo do sentido um rememorar dos que me esperaram. A individuação, em Benjamin, tem como rosto a retribuição por termos sido esperados....Aliás que outra coisa senão um desejo de retribuição leva o personagem do filme a não ceder à derrota, a não esmorecer perante a contrariedade do que parece inviável, desistindo da sua missão?
15/03/12
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